DIREITO E POLITICA Um boi para não entrar, e uma boiada para não sair * Carlos Augusto Vieira da Costa


Jamais escondi minha torcida por Cesare Battisti. Não que acredite na sua inocência. Apenas duvido que tenha toda a culpa que lhe imputaram. O seu julgamento baseou-se na delação premiada, um instituto do Direito Penal que tem alguma validade para desbaratar organizações criminosas, mas que se recobre de claro cinismo quando utilizado para transferir culpa, como no caso de Battisti, que acabou sendo escolhido como bode expiatório de todas as mágoas e rancores da sociedade italiana pelos crimes praticados pelos grupos terroristas que agiram no país nos anos 70, especialmente pelo assassinato do líder cristão Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas. 
Reconheço, porém, que passei a torcer muito mais depois que o governo italiano destilou toda a sua soberba e arrogância, ameaçando-nos de retaliações e outros perigos caso não o extraditássemos. Chegaram ao cúmulo de questionar a nossa idoneidade política apenas por conta de um caso particular, cheio de meandros e interrogações.
Ora. Que país e esse que invoca a respeitabilidade das suas decisões judiciais, mas não sabe dar crédito à Justiça alheia? Vale lembrar que a nossa Suprema Corte, por seis votos contra três, que decidiu a favor de Battisti.
Na verdade, frente à arrogância italiana, pouco importa se Battisti foi ou não autor dos crimes que lhe imputaram, até porque, como já dito, isto não é dado a ninguém saber com certeza, visto que seu maior acusador foi Pietro Mutti, um de seus companheiros de luta, mas que ganhou a liberdade em troca da acusação de Cesare.
O que de fato importa é que a decisão do Supremo Tribunal Federal garantiu o bem mais valioso de uma pátria: a sua soberania, que seria vergonhosamente aviltada caso cedêssemos às ameaças do governo italiano. É como no dito popular: um boi para não entrar numa briga, e uma boiada para não sair.
E se de fato Cesare for um assassino, será apenas mais um entre os muitos que andam livres pelas ruas do Brasil, tal qual os muitos que transitam entre os monumentos romanos. Mas pelo menos teremos mantido a cabeça erguida.


Postagens mais visitadas